quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Hermenêutica Sagrada - Figuras de Linguagem


Figuras de linguagem

Figuras de estilo / figuras de Retórica (Portugal) ou figuras de linguagem (Brasil) são estratégias que o escritor pode aplicar no texto para conseguir um efeito determinado na interpretação do leitor. São formas de expressão mais localizadas em comparação às funções da linguagem, que são características globais do texto. Podem relacionar-se com aspectos semânticos, fonológicos ou sintáticos das palavras afetadas. É muito usada no dia-a-dia das pessoas, nas canções e também é um recurso literário[1].
Neste primeiro trabalho vamos avaliar as figuras de linguagem conhecidas pelos nomes de Símiles, Metáforas, Parábolas, Alegorias e Provérbios.

Símiles
O Símile é uma comparação em que uma coisa lembra outra explicitamente. Para que se faça essa comparação são usados termos como: semelhante, semelhantemente, comparado, como, assim como, tal qual, tal como, etc. Há vários símiles na Escritura. Pedro usou um símile quando escreveu: “... toda carne é como a erva...” (1 Pe. 1:24). As palavras do Senhor em Lucas 10:3 são um símile: “... Eis que eu vos envio como cordeiros para o meio dos lobos...”. Também existem símiles no Salmo 1: “Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas” (v. 3) e "são [...] como a palha” (v.4). A dificuldade dos símiles é descobrir as semelhanças entre os dois elementos. Em que aspecto o homem é como a erva? Em que sentido os discípulos de Jesus eram como cordeiros? De que forma o cristão é como uma árvore e o ímpio como a palha?

Metáforas
A Metáfora, por sua vez, é uma comparação não expressa, em que um elemento imita ou representa outro (sendo que os dois são essencialmente diferentes). Na metáfora a comparação está implícita, ao passo que no símile é visível. Uma pista para identificar uma metáfora é que os verbos “ser” e “estar” sempre são empregados. Temos um exemplo disso quando o Senhor disse para Jeremias: “O meu povo tem sido ovelhas perdidas” (Jr. 50:6). O Senhor comparou seus seguidores ao sal: “Vós sois o sal da terra” (Mt. 5:13). Eles não eram sal de verdade; estavam sendo comparados ao sal. Quando Jesus afirmou: “Eu sou a porta” (Jo. 10:7-9). “Eu sou o bom pastor” (v.11-14) e “Eu sou o pão da vida” (6:48), ele estava fazendo comparações. Em certos aspectos, ele é como uma porta, como um pastor e como um pão. O leitor é levado a pensar de que forma Jesus assemelha-se a tais elementos.
“Existe na metáfora alguma característica comum a ambas as partes, a qual, normalmente, não é reconhecida como comum”.

Parábolas
Parábolas são Símiles ampliadas. Isto é, são comparações evidentes entre duas coisas para ensinar uma verdade espiritual e sempre começam com os termos utilizados nas Símiles (semelhante, semelhantemente, comparado, como, assim como, tal qual, tal como, etc). A diferença entre a Parábola e a Símile é apenas no que se refere ao tamanho. Enquanto a Símile é uma comparação breve, a Parábola é uma comparação feita a partir de uma história contada.
Assim como para a interpretação dos símiles as parábolas devem ser interpretadas com uma atenção especial no que se refere ao contexto no qual ela se origina.     
Quando possível divida a parábola em três partes: introdução (contexto ou explicação inicial), apresentação e aplicação. Também é sábio verificar e comparar a parábola com outro evangelho onde ela seja contada e determinar qual é o propósito (ponto central) da parábola.     Assim, ao explicar o texto, use somente às partes fundamentais da parábola e não se prenda aos detalhes, pois esse não é o seu propósito.         

Alegorias
As Alegorias, por sua vez, são metáforas ampliadas. Por essa razão as alegorias sempre vêm acompanhadas dos verbos ser.
O Senhor Jesus lança mão da Alegoria quando, no seu discurso de Joao 15, Ele afirma: “Eu sou a videira verdadeira (...)”.  (vv.1-17).          
Na Alegoria todas as figuras tem significado, ao passo que na parábola não. Ou seja, na Parábola algumas partes são descartáveis e estão ali apenas para enriquecer a história, mas não se aplicam à verdade a ser transmitida, enquanto que na alegoria cada parte constituinte tem uma relação com a verdade ensinada. 
Temos que ter o cuidado de nunca forçar um texto para uma exposição alegórica. Uma coisa é alegoria (presente de forma inquestionável no texto) em uma passagem, outra é alegorização de uma passagem (dar sentido alegórico a um texto literal.
Fatos históricos se tornam símbolos de verdade espirituais somente se assim as Escrituras o permitirem (isto serve tanto para a alegoria como para a tipologia). Ex. Gálatas 4.21-24.      

Símbolos
Considerações para interpretação dos símbolos:         
Os símbolos podem ou não terem semelhança com aquilo que ele está representando. Ex. a espada que representa a palavra de Cristo (ou seja, a forma como Cristo luta que é com sua palavra) em apocalipse 1.16.     
Baseiam-se em objetos reais ou imaginários. Ex. uma fera com sete chifres em apocalipse 17.3.     
O símbolo às vezes é difícil de ser interpretado. O contexto em alguns casos nos dá a interpretação (remoto – Apocalipse símbolos do VT, ou imediato), em outros casos isso não é evidenciado.          
O símbolo e sua representação também devem se submeter a seu contexto.      Ex. A figura do leão pode ser associada a Satanás 1Pedro 5.8 ou a Cristo Apocalipse 5.5.     
Parece que alguns números designam simbologia, contudo faz-se necessário ter cautela ao interpretar os números, pois nem todos os números são simbólicos. Geralmente são simbólicos: 7,12 e 40.     
Às vezes alguns nomes de personagens são simbólicos também, ex. Eva: a mãe de todos os seres humanos, Gêneses 3.20; Abrão e Abraão: pai de muitos povos, Gêneses 17.5.
Às vezes as cores também representavam símbolos, ex. púrpura representava realeza, Juízes 8.26, Esdras 1.6; branco representava pureza Isaias 1.18 etc. Contudo essa simbologia deve ficar limitada ao que a escritura diz, sem conclusões precipitadas. Lembre-se qua a Escritura explica a Escritura. 

Provérbios
Observações para interpretação dos provérbios:          
Às vezes o provérbio está baseado em fatos e costumes que se perderam ao longo do tempo, é preciso buscar o contexto cultural que possa fornecer a origem do costume para entender o Provérbio (Ex. Pv 31.10-31).     
Entendendo que os Provérbios podem ser símiles, metáforas, parábolas ou alegorias, faz-se necessário determinar o gênero literário do texto. (Ex. Pv 1.20.23, Ec 9.13-18).          
Do ponto de vista interpretativo precisamos reconhecer que, devido a sua forma altamente condensada, os provérbios têm, em geral, um único ponto de comparação ou princípio de verdade para comunicar. Forçar um provérbio em todos os pontos incidentais resulta, facilmente, em ir além da intenção do autor.
Por exemplo: quando o Rei Lemuel diz que a mulher virtuosa é “como o navio mercante” (Pv 31.14), ele não tencionava que fosse esta uma declaração acerca da circunferência de sua cintura; ela é como um navio mercante porque vai a vário lugares em busca de alimento para a necessidade de sua família[2].




[2] VIRKLER,Henry; Hermenêutica Avançada, Ed. Vida, pg. 125.