segunda-feira, 11 de junho de 2012

A EPÍSTOLA DE PAULO AOS ROMANOS CAPÍTULO 4 – ABRAÃO, JUSTIFICADO PELA FÉ


Texto Chave
“Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”
Romanos 4.3
VERDADE TEOLÓGICA
“Fé não é o que move o braço de Deus a nosso favor, fé é o que nos move para a glória de Deus.”
Ioséias C. Teixeira
ESTUDO DE PREPARAÇÃO SEMANAL
Segunda – Rm 4.1-8.
Abraão não foi justificado por obras humanas.
Terça – Gn 15.1-6       
Abraão creu no Senhor e foi justificado.   
Quarta – Rm 4.9-15
Abraão é o pai na fé de todos os que creem.
Quinta –  Gl 3.6-14
Abraão não foi justificado pelas obras da Lei, mas pela fé.
Sexta – Rm 4.16-25
Abraão é o modelo de fé para todos os que creem.
Sábado – Gn 17.1-27
Abraão recebeu a promessa antes da circuncisão.

Leitura Bíblica Congregacional
Romanos 4:1-8
1-QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?
2-Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus.
3-Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.
4-Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida.
5-Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.
6-Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo:
7-Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas,
E cujos pecados são cobertos.
8-Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.

Elucidação Textual
O texto base de nosso estudo fala da experiência do patriarca Abraão com Deus quando chamado. Paulo, o autor da Epístola aos Romanos usa o grande patriarca como modelo de fé, que não foi justificado por obras de justiça própria, mas pela fé na promessa que se revelou numa obediência incondicional à orientação do Santo Senhor.
  
Introdução
É muito difícil expressar em poucas palavras o conteúdo desse capítulo de Romanos. Apesar disso, nesse breve estudo vamos avaliar como Deus atribuiu justiça a Abraão por meio da fé e não de obras humanas, imputando-lhe justiça.
Assim como quem está se afogando não pode fazer nada para salvar-se, mas depende exclusivamente da orientação e ajuda de alguém que tenha o poder para tirá-lo de onde está, assim também nós estávamos completamente entregues à morte em nossos pecados e delitos (Ef 2.1) e dependemos exclusivamente da intervenção salvadora de Deus em nosso favor por meio da Sua Palavra. Vejamos então os desdobramentos dessas afirmativas.


                  I–ABRAÃO NÃO FOI JUSTIFICADO POR OBRAS HUMANAS (Rm 4.1-15).
Paulo começa a desenvolver seu argumento sobre a justificação usando o grande patriarca de Israel como modelo. Todo judeu considera Abraão como um modelo de fé e como modelo de prosélito, uma vez que ele era considerado gentio antes da sua circuncisão (Keener, 2004). Portanto, para os judeus alguém só poderia ser considerado “filho da Aliança” ao se circuncidar.
Porém, Paulo começa a desenvolver sua tese discorrendo sobre Gênesis 15.6 e mostrando pelo evangelho que Abraão não foi justificado por Deus mediante as suas obras (vv.1-15). O primeiro patriarca não foi justificado pelas obras (vv.1-5), mas pela graça divina. Como os judeus possuíam um conceito de Abraão como o modelo de homem justo (Jo 8.39), Paulo toca no ponto nevrálgico do conceito de fé judaico. O apóstolo passa então a mostrar que o grande patriarca de Israel não foi declarado justo por seus esforços pessoais, pois se fosse assim Abraão teria motivos para se vangloriar diante de Deus.
A justiça de Abraão lhe foi atribuída pelo Senhor por um ato de graça e não de dívida de Deus para com ele.
Paulo continua seu raciocínio utilizando o método exegético judaico, gerezah shavah, que liga textos contendo a mesma palavra-chave, e cita o Salmo 32.1,2. Paulo explica o que significa o termo “imputa” e reconhece que o crédito do Salmo é baseado totalmente na graça de Deus e jamais na perfeição do salmista. (Keener, 2004).
Continuando as regras judaicas de interpretação Paulo agora lança mão do contexto para mostrar que Abraão foi declarado justo antes de ser circuncidado (Rm 4.9-12, cf. Gn 15.6; 17.24,25). A justificação de Abraão é narrada no Gênesis 15, e sua circuncisão só no Gênesis 17, uns quatorze anos mais tarde; portanto não era de sua circuncisão que dependia sua aceitação por Deus. (Denney)
Sendo assim Abraão é o pai dos que creem independente da circuncisão. Paulo se preocupa em explicar que a circuncisão foi estabelecida como o sinal externo (selo) da justiça creditada a Abraão anos antes. “Porém a circuncisão não adicionava nada à fé, nem a tornava desnecessária”. (Geoffrey B Wlson).
Paulo encerra a primeira fase do seu argumento deixando claro que Abraão também não foi justificado pelo cumprimento da Lei (vv.13-15).
A fé perde seu completo sentido se a promessa deve ser conquistada pela obediência à lei (Gl 3.11). Abraão não foi justificado por atos de justiça pessoal, mas por crer e aceitar a oferta de misericórdia e graça do Senhor. Quando questionado sobre a sua fé você passa a se mostrar como exemplo de boas obras ou como alvo da misericórdia de Deus? Sua resposta determina sua arrogância religiosa ou humildade cristã.

II–ABRAÃO FOI JUSTIFICADO PELA FÉ (Rm 4.16).
Neste versículo Paulo coloca os seus leitores em cheque. Eles devem continuar crendo na justiça completada pela fé, com base na graça de Deus ou a justiça completada pelo conhecimento da lei. Se a justiça é completada pelo conhecimento da lei então Israel seria considerado mais justo que os gentios, sem a consideração da fé.  (Keener, 2004).
Contudo, o apóstolo dos gentios faz questão de afirmar que a justiça provém da fé para que seja segundo a graça. Isto é, se a justiça humana diante de Deus se constitui na observância detalhada dos preceitos da Lei então o homem se auto justifica e tem méritos na sua salvação e Deus fica obrigado a salvá-lo, pois “cada um está fazendo a sua parte”: Deus oferecendo salvação por sua graça (porque os judeus creem na graça) e o homem a conquistando por seu esforço em cumprir a Lei. Mas Paulo está muito preocupado em que seus leitores entendam a verdade dos fatos. Não há mérito nenhum no homem que possa salvá-lo, pois não há justo na terra (Sl 143.2; Ec 7.20) e ninguém que cumpra a Lei e possa ser salvo por ela, senão pela graça (Gl 3.10,11).
Com esse argumento Paulo põe os gentios em pé de igualdade com os judeus. Ambos precisam exercer fé na graça salvadora para que possam ser justificados por Deus. Portanto, não há privilégios para os judeus por serem os detentores da Lei de Deus, nem para os gentios por não poderem ser julgados pela lei visto que não a conhecem e não podem responder por ela. O fato de os judeus possuírem a Lei não lhes impõe privilégios, mas responsabilidades e culpa por conhecê-la e não praticá-la (Gl 3.10,11). O mesmo se aplica aos gentios, pois o fato de eles não terem a Lei escrita em livros eles a tem escrita em sua consciência, que os acusa ou defende com relação à lei escrita nos seus corações (Rm 2.15).

III-ABRAÃO E A FÉ EM DEUS (Rm 4.17-25).
Os judeus admitiam que Deus pudesse fazer qualquer coisa existir a partir de sua palavra apenas (Gn 1.3). Com isso Paulo diz que a promessa de Deus feita a Abraão era suficiente para transformar gentios em seus filhos. Afinal, o Senhor havia prometido a Abraão que ele seria o pai de muitas nações antes mesmo de lhe ordenar que se circuncidasse (Keener, 2004).
A fé, na experiência de Abraão, nada mais é do que uma dependência contínua na promessa de Deus. Uma disposição de arriscar a vida para obedecer às ordens de Deus, ainda que sem a menor perspectiva humana do que aconteceria amanhã.
O objeto da fé de Abraão é Deus (v.17). O homem em sua condição natural nutre um profundo pavor pelo nada e a morte. Porém Abraão não temia as circunstâncias porque sabia em seu coração que o nada e morte não são problemas para o Altíssimo. “Pelo contrário, foi a partir do nada que Ele criou o universo e foi da morte que Ele ressuscitou Jesus, por isto podemos acreditar tranquilamente no poder e fidelidade de Deus” (Veloso). Abraão crê em Deus mesmo diante da incerteza humana.
Uma das grandes provas dessa fé de Abraão encontra-se na certeza da promessa de um filho mesmo diante de todos os obstáculos (vv.18-20). Esta fé crê no humanamente impossível e não nas circunstâncias. Ela olha acima de todas as dificuldades para o Deus que é onipotente.
Abraão creu contra todas as evidências ao contrário, para que o propósito declarado de Deus pudesse ser cumprido nele. A natureza da fé é crer em Deus com base apenas em Sua Palavra (Veloso).
Com o objeto da fé firmado, cabe a nós compreender o objetivo da fé (vv.20b-22).
A fé de Abraão tornou-se forte, cresceu, assim como o grão de mostarda (Mt 17.20). A nossa fé também irá crescer na medida em que aceitarmos as promessas e obedecermos a Palavra do Senhor. A fé não glorifica o homem, mas a Deus; e é Ele que age e não o homem.
Abraão não foi consumido pela ansiedade e angústia, ou pela desconfiança porque tinha certeza da promessa. Essa é a fé que justifica (não a aceitação cega), mas a confiança esperançosa em Deus que tudo pode.
Consequentemente aqueles que agem por fé e não esmorecem acabam por receber os benefícios da fé (vv.23-25).
“Porque creu no Senhor isso lhe foi imputado como justiça” (v.22; cf. Gn 15.6). Essa palavra é aplicada por Paulo também para nós, a quem Deus creditará justiça porque cremos naquele que ressuscitou dos mortos a Jesus, nosso Senhor. Ele foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação. (Veloso).

Conclusão
O propósito de Paulo é deixar claro que ninguém pode ser justificado por meio de obras de justiça humana, mas pela grande graça e misericórdia de Deus.
Para isso, o apóstolo lançou mão do maior ícone da fé das três grandes religiões do mundo (cristianismo, judaísmo e islamismo): Abraão. Com seu argumento forte e muito perspicaz Paulo mostra como Abraão foi justificado antes da instituição da circuncisão, que somente ocorreria 14 anos mais tarde, e como ele foi declarado justo pelo Senhor porque crera na Sua palavra.
Em suma, o que Romanos 4 ensina é que nenhum de nós tem motivos para se vangloriar em qualquer coisa. Somos justificados pela infinita graça e misericórdia do Senhor de todas as coisas e não por nossos méritos. Nenhum de nós é melhor do que ninguém, somos todos iguais diante de Deus e não temos nenhuma razão para nos considerar mais especiais do que quem quer que seja.
Deus nos abençoe e nos ajude a entender sempre que a honra e glória pertencem exclusivamente a Ele.

GLOSSÁRIO
Prosélito – adepto, convertido que se tornou seguidor de alguma crença religiosa.
Circuncisão –
Nevrálgico – crucial, crítico, decisivo.